quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Contos espontâneos (II): palavras flutuantes

13 maldades alheias
Para ler ao som de "Dream a little Dream of me", de Doris Day

Olha só, eu sei que você não vai acreditar em mim mas eu vou contar mesmo assim, pode ser? Escuta pelo menos. Aconteceu ontem quando eu estava andando na praia e era perto das três da tarde. Foi bem daquele jeito, sabe? A gente vê nos filmes e nos livros mas acha que é tudo historinha piegas mas eu vi, juro, bem na minha frente e foi real e não venha me dizer que eu passei tempo demais andando no sol. Lá estava eu andando na direção do trapiche, aquele bem depois do morro, onde tem os restaurantes mais bonitos, só que eles estavam meio vazios aquela hora. Aí eu fui até o fim do trapiche e subi naquela plataforma que fica boiando tipo uma balsa e não tinha nenhum barco ancorado. Sentei na beirada e fiquei mexendo os pés tentando não pensar nas vezes que eu vi filmes como Tubarão ou Piranhas assassinas, você entende. E nessa hora uma coisa gelada roçou minha perna. Não, claro que não era um peixe nem tubarão nem nada. Era uma garrafa verde. Com rolha. Juro, não estou inventando isso não. E dentro tinha um papel com umas manchinhas roxas bem pequenas porque talvez a pessoa não tenha lavado a garrafa antes de por o papel. Era uma carta, a propósito. Como eu vou sabe pra quem era? Não, não tinha nome nenhum. Acho que nem era pra ninguém, se tava no mar e não na caixa de correios. Mas o que eu queria te dizer era o que estava escrito. Claro que eu li, o que você acha? Se você encontrasse aquelas palavras ali boiando também não ia ler? Era assim:

“Te vejo andando por caminhos tortos, meu bem. Todos os dias vejo suas pegadas sinuosas e irregulares, te levando a lugares em que não estou. Todas as vezes que você se afasta me sinto morrer um pouco como você nem imagina nem eu diria. Te vejo entre tantos amigos, sempre com esse sorriso de plástico, o gelo tilintando no copo cheio. Cheio de que? De ilusões e mentiras e amores passageiros e superficiais. Te vejo buscando alguma coisa que não sabe o que é em lugares onde certamente não está. Ah meu bem, eu vejo seu rosto quando ele se contrai de dor e logo depois disfarça, numa fração de segundos parece que nada aconteceu. Eu que já te conheço tão bem por não conseguir tirar os olhos de você vejo todas as vezes em que tenta fugir de si mesmo, se perdendo num mundo que não te traz nada de enriquecedor mas que só te entristece. E se você soubesse, amor, se soubesse o quanto me dói te ver assim, indo, mergulhando. Eu vejo o vazio dentro de você, que tenta inutilmente disfarçar. Deixa, vai? Deixa eu cuidar de você. Deixa eu olhar pra você e te ver de verdade. Deixa eu pensar em você. Deixa eu te escutar e mesmo quando você não tiver nada pra dizer deixa eu ficar do seu lado. Deixa eu sonhar com você, com seus abraços seus beijos e sua entrega. Você precisa de alguém cuja vida sinta falta da sua quando você não estiver. Será que só você não vê que eu quero e preciso e desejo você com todos os seus defeitos, inseguranças, medos, erros e mágoas passadas. Você precisa de alguém que não vá te dizer que está sem tempo quando você precisar e meu bem, eu tenho tempo. Todo tempo que eu ainda tenho te pertence. Deixa, amor, que eu te faço viver uma coisa bem bonita sem que”

Não, não tem mais nada. Termina aí. Não sei porque termina aí, não fui eu que escrevi! Você me faz umas perguntas descabidas às vezes, sabia disso? Não faz essa cara não. É claro que eu gosto de você. Eu te mostrei essa carta porque é exatamente isso que eu venho tentando te dizer a tanto tempo. Queria que você voltasse comigo lá na praia pra por a garrafa a água de novo, vamos? Mais perguntas. Não é óbvio? Pra pessoa pra quem essas palavras foram escritas achar! Eu sei que as chances são quase nenhumas mas não custa nada. Talvez ela precise ler e talvez por isso chegue até essa pessoa. Ah, a propósito. E você, você deixa?



“(...)e choro sempre quando os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, quando meu perigo aumenta e sem me conter te assaltaria feito um vampiro faminto para te sangrar e te deixar mudo, sem nenhuma história a te esconder de mim, enquanto meus dentes penetrando nas veias da tua garganta arrancassem do fundo essa vida que me negas delicadamente, de cada vez que me procuras e me tomas, contudo me enveneno mais quando não vens e ninguém então me sabe parada feito velha num resto de sol de agosto, escurecido pela tua ausência.”

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Pretextos

13 maldades alheias
Antes de voltarmos ao drama habitual (post um pouco atrasado, admito) quero agradecer a todos vocês que tiveram a santa paciência de ler meus textos quase sempre pessimistas, baseado em experiências pessoais ou alheias ou só divagações por causa do meu caso crônico de insônia. Saibam que eu leio todos os comentários e eles são absurdamente importantes pra mim. Também peço desculpas por não poder retribuir todas as visitas mas sou extremamente desligada e meu computador tinha estragado e eu dependia do computador de terceiros, que não gostam de dividir, entendem? Mas agora as coisas voltaram ao normal e eu prometo retribuir visitas, comentários e quem sabe postar com mais frequência. Agora, ao post!

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As pessoas nunca deixam de me surpreender. Nem sempre positivamente é claro. Quase NUNCA positivamente, pra falar a verdade. E mesmo que eu sempre espere o pior de todo mundo de vez em quando me distraio e me pego esperando coisas boas. Engraçado, eu que sempre me julguei prevenida contra qualquer tipo de apego emocional, que sempre me achei tão independente dessas formas desesperadas de socialização acabei caindo. Conseguiram me enganar. Parabéns!
O ser humano tem dessas de conseguir esconder quem realmente é. Ou vai ver é só a gente que enxerga as pessoas como queríamos que elas fossem. Adaptamos, sabe como? Você espera tanto tanto tanto tanto ttttttaaaaannnnnttttoooo de alguém que começa a ter miragens com isso. E o pior, começa a interagir com as alucinações quando a imagem real está bem ali na sua frente, mostrando-se em toda a imensidão de defeitos. A imagem muda com o tempo, transforma-se, envelhece e você continua com as miragens, acreditando cada dia mais. Porque pra alguns as mudanças são muito dolorosas. A verdade parece simplesmente insuportável.
Aí um dia vem as nuvens bloqueando o sol e tudo se desfaz. Seus olhos se abrem e você vê coisas que não queria por nada desse mundo. Como constatar quão pouco você significa pra quem significa tanto pra você. E como por estupidez você não valorizou quem verdadeiramente gostava de você. É desesperador pensar que quem entendia e respeitava seu modo de pensar não está mais ao seu lado. Tantas e tantas opções e possibilidades e eu fui justo escolher as erradas? E como eu poderia saber que elas viriam a ser as erradas hoje, se no passado pareciam as mais agradáveis possíveis? Parece que tudo converge pra mesma coisa, os tais erros de percurso. Que na falta de ter quem culpar, culpamos o mundo. TODO mundo.
Começa a dar aquela sensação de desencaixe.
Já sonharam que estão dirigindo na contramão? Pois é mais ou menos assim. Aquela parte da sua mente que a terapia ensina a reprimir fala mais alto e perguntas como "pra que?" começam a surgir. No começo meio embaçadas, como as placas na estrada quando a neblina está baixa. As esperanças nos outros vão morrendo e mais e mais. E novas decepções e aquela coisa de eu-nunca-esperava-isso-logo-de-você. Aquelas perguntas já começam a tomar forma como em "pra que aguentar tudo isso se". E novas desamizades e velhas mágoas. E falta de compreensão e de respeito. Falta de vontade. Um cansaço descomunal pra continuar sonhando e planejando um futuro superficial e por vezes impossível. E as perguntas já se tornam gritos "pra que aguentar tudo isso se dá pra por um fim em tudo?"
E quando A pergunta já está ali, piscando em neon, ensurdecedora. Está em tudo o que vê, em cada palavra que escuta, escondida por trás de cada palavra que diz, é que.
Que aparece. O motivo, a razão, a desculpa para. Você chama do que quiser, eu chamo de pretexto. Não uma miragem. É real e você sabe disso porque vê todos os defeitos e complicações e possíveis desapontamentos. É real porque, e isso eu li num livro certa vez, COMO PODE SER ILUSÃO AQUILO QUE NOS FAZ TÃO FELIZES? A melhor parte é que não importa. Pode não ser tão bom mas é o seu único motivo pra continuar.
E basta.
Porque nem todos os "amigos" ou "amores" do mundo pagam aquele BOM DIA inesperado.




“Ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, duas décadas de convívio cotidiano, mas ando, ando, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, eu só queria ser feliz, cara.”

 
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