quinta-feira, 24 de março de 2011

Pra poesia que a gente não vive

18 maldades alheias

Para ouvir ao som de qualquer música. Hoje tanto faz. Só me conte qual, depois.

O problema, meu querido, não é você. Eu falo sério, sem um pingo de ironia ou falsidade. O problema é comigo. O problema, o problema de verdade, sou eu. Você foi só uma vítima. Vítimas são sempre tão desavisadas. Desatentas. Mas fica aí no teu canto tranquilo que ninguém espera grandes feitos das vítimas. Exceto que elas deixem a história no momento oportuno.

O problema é que eu tenho amor demais, sabe como é? Amo o suficiente pro dobro de mim. Não parece, né? Vendo assim de longe esses meus passos pequenos, esses meus gestos tão contidos. Esses segredos que me embaçam os olhos. Mas, meu bem, quando amo eu sou tempestuosa, exagerada, neurótica, louca. Amo e me sinto tomada, possessa, de um jeito que não sobra espaço pra essas besteiras tais como lembrar onde está o carro no estacionamento do supermercado. Olhar para os dois lados antes de atravessar a rua. Desligar o despertador no domingo.

O problema é que eu não agüento mais tanta baboseira sobre o amor, sobre o qual eu tenho lido. Não me venha com essa historinha de abnegação e nem sei mais o que. Nem tente me empurrar esse dogma furado de “eu espero que você seja muito feliz mesmo que não seja comigo”. Espero coisa nenhuma! Eu quero te ver esvaindo numa poça de sangue. Eu quero te ver morrendo, quero ver desespero em seus olhos quando me afasto. Quero que você sinta que não pode viver sem mim porque só eu sentindo isso é covardia. Pensar que você possa ser feliz sem mim da vontade de gritar até explodir, como costumam acreditar que as cigarras fazem. Puro egoísmo, eu sei. E nem me importo.

O problema é que quando se tem amor demais dentro de si ele desarranja o estômago. O amor vai te fazer sentar no chão da sala abraçando os joelhos e se balançando pra frente e pra trás. Só espera. O amor é um circuito e pra funcionar tem que ter o outro e meu outro é você. Eu quis que fosse você. Veja bem, eu poderia ter escolhido qualquer outro “outro” mas escolhi você. E quando o amor é demais e a gente entrega ele todo na mão de uma pessoa só a gente espera receber de volta nem que seja a metade. O amor é uma troca injusta onde se entrega demais de você pra alguém com as mãos ocupadas. E vai receber um não-sei-o-quê sem forma nenhuma que não te serve nem pra esquentar os pés numa tarde de maio. Entenda como quiser. Paciência.

O problema é que o amor não é paciente. Tem é pressa. É esfomeado. Tem sede e a minha sede só acaba onde começa a tua boca. Mas também é criatura instável, volúvel, tem vida própria. O amor anda nos becos nas noites sem lua procurando a próxima vítima. Te espreita feito bicho selvagem com os dentes a mostra, os olhos venenosos fixos na veia pulsante no teu pescoço.

O problema, coração, é que meu estomago não anda muito bem.

E o sol já se foi faz algum tempo.


"Amor não - não a dor que me impele de escrever isto mesmo sem eu querer, a dor que não será apagada pelo ato de escrever e sim acentuada, mas que será redimida, e se ao menos fosse uma dor digna que pudesse ser colocada em outro lugar que não essa sarjeta negra de vergonha e perda e loucura barulhenta na noite e pobre suor na minha testa" -Kerouac

sábado, 12 de março de 2011

Sacrifícios

12 maldades alheias

Para ouvir ao som de Like a Song, da Lenka.


Faz talvez sete ou oito anos, num acampamento parcialmente esquecido, no último dia eu e algumas amigas fomos encarregadas da penosa missão de comunicar um falecimento. Não sei se você já teve que fazer isso, mas se não espero que nunca precise. Nem fui eu quem disse alguma coisa e senti como se tivesse acertado uma joelhada nos rins da pessoa. Era tanta dor que eu tive que desviar os olhos, sem que isso me tenha permito esquecer a cena.

Mas feliz ou infelizmente pouca coisa é mais difícil do que ter que dizer adeus. Não existe palavra mais pesada ou mais impronunciável. A boca treme pra dizer, os dedos gelam pra não ter que escrever. Mas às vezes, e como eu agradeço por ser só às vezes, a gente fica sem escolha e não tem outra saída. Caímos numa encruzilhada e somos birrentos demais pra fazer a volta. Às vezes é preciso deixar o egoísmo de lado, pensar mais nos outros e no que é bom pra eles também. Ser mais altruísta, entende? Deixar as coisas irem porque sem você estariam a salvo. Estariam – admita – melhor sem você.

Tem dias que você acorda e a vida te pede pra deixar algumas coisas. Não como um teste ou algo assim. Isso não é um jogo. É só a vida. Vez em quando tem umas dessas, vai fazer o que? Se a dor de deixar partir é ainda maior do que a dor de manter por perto, é preciso medir em longo prazo. Se tudo no que você pensa parece dar errado talvez precise pensar de um jeito diferente. Você passa noites em claro procurando um bom motivo para deixar quando na verdade já têm muitos. Só está esperando um que entenda, que te convença, que faça parecer mais suportável ou mais lógico. Na verdade procura um motivo que desmereça todos os outros, justamente pra não ter que deixar nunca. Porque o pior do adeus é que por mais intenso que seja sempre parecerá parcial. Você ainda tem as lembranças, os dias quietos, os espaços vagos e, acima de tudo, tem a esperança de que o adeus não seja eterno. Deixar às vezes é a melhor escolha. Não a escolha certa, o certo é instável, flutua entre as ocasiões. Não dá pra dizer que uma escolha é certa quando faz alguém sofrer. É melhor porque poupa das dores futuras, as suas e de quem você deixa.

Eu sinceramente trocaria toda dor de um momento de despedida por uma dor incômoda e diária. Só pra não ter que dizer, só pra não ter que borrar os olhos mais uma vez. E o tempo insiste em passar rápido e simplesmente não dá pra perder ainda mais com medo, com as pernas bambas.

Não é abandonar. Abandonar é jogar por cima dos ombros sem olhar pra trás nem pra ver onde caiu. Deixar, pura e simplesmente, é diferente. Deixar é o beijo de despedida na testa. É a tentativa falha de controlar o choro, as promessas frustradas. São os dedos que se tocam até que a distância não mais permita. Virar-se e continuar vivendo ou sobrevivendo, ainda que cambaleante. Deixar é quando você sente que perdeu, é quando você torce pra alguma coisa ou alguém (mais “alguéns” do que coisas) não te esquecer, é quando levam parte de você. Às vezes, parece, levam a alma toda. Deixar é quando, apesar de aliviar a bagagem, o peso sobre as costas parece muito maior e os joelhos ficam mais fracos. É entender que Maquiavel não estava sendo frio e calculista quando afirmou que sacrifícios devem ser feitos para um bem maior. Ele estava sendo sensato.


“E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. (...) Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no prato. A dor de perder alguém em vida é pior do que a dor da morte, porque é o nunca mais de alguém que se poderia ter, já que está vivo e por perto.”.

 
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