quarta-feira, 21 de setembro de 2011

É dia 21

7 maldades alheias

É teu aniversário e eu aqui, duas horas pensando no que dizer. Mas tudo bem que só é o décimo aniversário desde que te conheço. Que é quase uma vida. Que é metade da sua, falando nisso. E acho que quanto mais você conhece alguém, menos você tem pra dizer. Porque quase que não precisa, tá tudo mais ou menos dito.

E também porque o que eu diria aqui não faria sentido pra mais ninguém e nem teria a mesma graça. Das nossas histórias só a gente viveu, só a gente sabe como foi.

Também acho essa coisa de ficar falando de amizade meio brega e sentimental demais. Que nossa amizade não tem nada de brega, que a gente mais ri do que qualquer outra coisa. E se alguma coisa deprime uma a outra já dá um jeito de fazer nascer umas risadas.

Aniversário dos outros tem dessas de fazer você pensar em quanto alguém é importante e eu penso isso o tempo todo. E a partir de hoje vai saber que toda vez que a gente estiver com nossos amigos num Burger King 24 horas rindo das histórias de colégio, ou num churrasco muito louco com um monte de gente que a gente não conhece, ou numa maratona de filmes do Harry dizendo todas as falas em inglês, ou num show de alguém que a gente nem gosta tanto assim, ou mesmo nessas briguinhas idiotas que a gente tem às vezes, vai saber que eu vou estar pensando “Cara, que sorte eu tenho em ter uma amiga tipo a Yan”.

E que essa enrolação toda era só pra tentar dizer que eu quero que você seja tão e tão e tão e tão e tão e tão feliz que fica até meio difícil de explicar. Mas vai que daqui uns 30 anos você entende, quando a gente tiver rindo das histórias de agora. Porque eu espero que nem um milésimo dessa amizade se perca nesse tempo, que ainda tenha muitos aniversários e bolos de Kit Kat e München Fest ou qualquer outra coisa que a gente inventar.

Enfim, feliz aniversário! Que tudo, tudo mesmo saia como você planejar.

Vou estar aqui sempre que você precisar, você sabe. Te amo muito.

E enjoy your cake ;)


- O quanto vocês são amigas?

- Do nível que se ela matar alguém eu ajudo a esconder o corpo e não faço perguntas.

domingo, 4 de setembro de 2011

Resenha #4 - Teia Virtual

2 maldades alheias
Esse mês chegou pelo correio o livro Teia Virtual, do autor Carlos Eduardo R. Bonito. E eu logo de cara olhei a capa e pensei "Hm, talvez não vá gostar". E naturalmente entrei em pânico porque uma critica negativa certamente me levaria, quem sabe, a uns comentariozinhos irônicos e coisa e tal.
Quando comecei a ler percebi que a coisa ia ficar interessante e vou explicar porque. É que lá está ele, o promotor bonitão Alexandre cheio de casos pra resolver. Muitos assassinatos. No começo ele não percebe, mas os casos tem muito em comum. Mas a colega de trabalho, beth, percebe e junto com Helena resolvem começar a investigar. Aparentemente todos os assassinos foram incentivados a tais atos por um homem sem escrúpulos que se aproveita da dor dos outros para se aproximar. Quando Alexandre se dá conta ele já está envolvido demais. E esse homem, que se auto intitula Anjo da Morte adora brincar. Ele sabe, por exemplo, de todos os problemas que Alexandre tem com o irmão mais novo, sabe do seu desencontro amoroso com Helena e mais algumas coisas. Então os 3 se envolvem meio na louca numa missão de capturar o tal Anjo.
É um livro fácil de começar, ele meio que te envolve. Você tem um cara mau inteligente e com senso de humor, como todo cara mau deveria ser. E você tem o mocinho, não um idealizado, mas um com defeitos que de tão teimoso até te irrita às vezes.
Fica evidente que a trama foi cuidadosamente planejada. O narrador muda constantemente o que permite que você tenha uma visão mais ampla da história, sem que isso a torne meio confusa. Os capítulos são pequenos e a linguagem é de fácil entendimento, escrito especialmente pra prestar atenção no enredo e não nessa ou naquela palavra difícil dispensável.
É, tem um ou outro lugar-comum e uns diálogos mais ou menos, mas o final, DEIXA EU TE CONTAR, é muito inesperado. Vai te pegar de surpresa e fazer toda a leitura valer a pena. Um livro pra parar só na última página.


"Meus sentimentos não provinham nunca do coração, enquanto que minhas paixões vinham sempre do meu espírito."

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Resenha #3 - A morte do cozinheiro

1 maldades alheias
Quando recebi o email do Selo Brasileiro com a relação dos livros do book tour um deles logo me chamou a atenção. E foi esse, A morte do cozinheiro. Então numa quinta ou sexta-feira ele finalmente chegou na minha caixa de correio. Estranhei a embalagem pequena e quando abri descobri o porquê - ele tem 78 páginas. E de tão acostumada com livros enormes logo me armei de preconceitos. Mas naquele mesmo dia, no ônibus, indo para o trabalho comecei a ler. E foi terrível ter que parar ao chegar no destino. Pois a cada linha, a cada nova ironia o autor conquista até o leitor mais exigente. Pois é impossível não simpatizar (ou até mesmo compartilhar) o drama de Luiz.
Imaginem, ver a pessoa que você ama nos braços de outro alguém. E ainda por cima ter a certeza (mesmo que seja só a sua certeza) que esse alguém nunca será bom o suficiente pra pessoa que você ama. Então você recebe uma ligação anônima avisando que esse alguém pretende matar quem você ama. Não restam dúvidas, esse alguém deve morrer. Porque por amor, tem-se a impressão de que qualquer ato é passível de perdão. E por que deveria ser diferente?
Allan Pitz nos faz mergulhar na cabeça de um dos personagens mais cheios de nuances que eu já conheci. Não é só a história de um individuo que sofre por amor, é um individuo que sofre por amor e se deixa contaminar pelo lado mais sórdido do ciúme, que segue a própria lógica.
O autor faz uso da metalinguagem e convida o leitor a acompanhá-lo durante as reflexões de Luiz. O personagem se torna um advogado de seus próprios atos, te convence de que o homicídio do vil cozinheiro é a única solução. E a solidão em que se encontra não é das melhores conselheiras.
Posso dizer, sem correr o risco de ser exagerada que foi o melhor livro que eu li esse ano. Não há o que se contestar, a história se completa com um final comum, mas de certa forma inesperado. As frases são maravilhosamente bem construídas, e as palavras são estrategicamente coladas, parecendo que não podem ser usadas em outro contexto.
Como único ponto negativo devo citar que, infelizmente, a história acaba rápido demais. E eu querendo me perder nos pensamentos de Luiz.

(...)

Longas horas em que nada vejo,

longos passos,

do meu próprio anseio.

Dormir ouvindo os sons da despedida:

Em passos largos...

De quem nunca veio

- Allan Pitz

domingo, 24 de julho de 2011

Resenha #2 - Doença e Cura

8 maldades alheias
Essa talvez tenha sido a leitura mais difícil que empreendi na vida. E olha que eu li Heidegger no primeiro ano de faculdade. Por isso eu demorei SEMANAS para terminar. Pra quem já leu um livro inteiro num só dia foi quase uma ofensa pessoal.
E não me entendam errado, o livro não é de todo mal. Eu só me perdia constantemente na história. Se você quer começar a ler Doença e Cura tenha tempo. Pois se você não entender uma parte vai ter que voltar ou no final nada vai fazer sentido. Porque a história é assim. Ela vai se completando aos poucos, vai propositadamente deixando lacunas na mente do leitor. Fabian Balbinot quebrou todas as fórmulas da escrita e criou um estilo sem precedentes. A história não segue nenhum padrão. São 7 capítulos que no começo parecem independentes, mas que no final juntam-se para explicar, afinal, que raio de cura é essa.
Conta-se que vampiros existem e vivem no meio de nós, discretos. Eles tem poderes, capacidades inacreditáveis e a tão conhecida sede pelo sangue humano. E também são vulneráveis ao sol, mas esse é um dos únicos pontos fracos da espécie. Até que, inexplicavelmente, vampiros começam a morrer da forma mais bizarra que se pode imaginar. Órgãos que derretem dentro do corpo, seres que enlouquecem e saem na luz do dia, poderes fora de controle. A resposta parece estar no sangue. Tudo se resume ao sangue. E nas estranhas criaturas rondando os vampiros.
Pode me chamar de antiquada se quiser, mas eu tenho um certo preconceito com histórias que não seguem uma linha. Uma inovaçãozinha às vezes passa. Mas sou daquelas leitoras que tem que ter todas as informações pra prosseguir, sabe?
Se você é do tipo que gosta de vampiros e/ou gosta de livros que quebram paradigmas NÃO DEIXE DE LER Doença e Cura.
E uma coisa que eu preciso dizer, o vocabulário do autor é incrivelmente rico. Dá pra ver que ele teve um cuidado enorme com essa parte.

Na próxima resenha, A Morte do Cozinheiro.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

...poesia (III): Meia Noite

9 maldades alheias

Deu uma vontade de escrever poesias, mesmo que fique bem claro que me saio melhor na prosa. Pelo menos pra mim. Deu vontade, só isso. E achei que em inglês ficaria mais sonoro. Fica mais bonito, na verdade. E o que saiu foi isso. Sem direitos adquiridos, faça com ela o que quiser.


It's midnight in somewhere

É meia noite em algum lugar

It's cold

Está frio

But I don't care

Mas eu não me importo

You are just another one

Você é só mais um

In the crowd

Na multidão


You touch my shoulder

Você toca meu ombro

And this is enough

E isso é o suficiente

I feel waver

Eu me sinto vacilar


I guess I need you tonight

Acho que preciso de você essa noite

So put out your cigarette

Então apague seu cigarro

And drink more wine

E beba mais vinho

Because the night is ours

Porque a noite é nossa

Let's cross the line

Vamos cruzar a linha


I can see fireworks

Eu posso ver fogos de artifício

When I look your smile

Quando olho seu sorriso

Your kiss is like a storm

Seu beijo é como uma tempestade

I think I love you for a while

Acho que te amo por enquanto


"Serei feliz quando um verso meu te fizer chorar e perder a fala"

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Resenha #1 - Draco Saga - vol. 1 - O despertar

8 maldades alheias
Pra quem ainda não sabe, estou participando de um book tour pelo Selo Brasileiro. Uma iniciativa maravilhosa de troca de livros pra valorizar os novos autores nacionais. Se quer saber mais, clica aqui.

E o primeiro livro que eu recebi foi Draco Saga, direto do próprio autor, Fábio Guolo.
A história é super complexa e bastante surpreendente. Somos carregados até um mundo desconhecido dominado por grandes e poderosos dragões. Mas por descuido de outras criaturas uma praga foi espalhada, contaminando esse mundo perfeito, se multiplicando e destruindo tudo o que toca. E a praga, vejam só, somos nós humanos! Nós e essa mania de tentar impor nossa cultura a qualquer um que atravessa nosso caminho. A solução óbvia é eliminar a praga da superfície da terra. Mas é mais difícil do que parece.
Confesso que no começo estava um pouco cética quanto a esse livro, por se distanciar do que costumo ler. Mas me deixei levar e a cada página eu me surpreendia, cada novo parágrafo era um mergulho sem volta nesse mundo fictício incrível. No decorrer da história surgem debates interiores, colocando a prova tudo aquilo em que acreditamos. Vemos nossas crenças de uma perspectiva diferente e um turbilhão de pensamentos nos invade. Colocamos nossos valores em pauta. O que, afinal, estamos fazendo do nosso tempo, do nosso mundo, de nós mesmos? E quantas justificativas absurdas estamos usando pra praticar atos funestos.
Uma narrativa dinâmica e cheia de detalhes, desde os nomes diferentes até a descrição dos relevos. Meus parabéns ao autor. Espero ansiosa o volume 2.





sexta-feira, 13 de maio de 2011

Pra mim

6 maldades alheias
...ao som de A idade do céu, Zélia Duncan.

Não é propriamente ruim fazer aniversário numa sexta-feira 13. Quero dizer, eu já me acostumei. Ou deveria porque dos (não importa!) tantos aniversários que eu comemorei uns três ou quatro cairam nesse dia. Fora o simbolismo e a coisa toda não tem lá suas desvantagens. Nem vantagens, no entanto. No fundo não importa. Ainda estou me acostumando com isso de não querer fazer mais aniversários. Já fiz aniversários o suficiente! Porque cheguei numa época em que cada aniversário tem o peso de um ano inteiro. Nem me passa pela cabeça que na verdade é só a marca de 365 mini-aniversários que comemoro todos os dias. Notou a ironia na palavra "comemoro", certo?
Devo ter dito que a coisa toda de aniversários me irrita um pouco. É desanimador, na verdade. Estaria mentindo se dissesse que não é um dia esperado, que não é um dia especial. O problema é que só é especial pra quem nasceu naquele dia. Pense em quantas pessoas tiverem que acordar cedo no seu aniversário e pensaram "ai que droga! Mais um dia naquela merda de emprego!" enquanto você já acorda esperando as ligações de quem você ama. E que supostamente, e eu disse SUPOSTAMENTE te amam de volta. O problema é que quando o telefone não toca você já fica pensando que tem alguma coisa de errado, ninguém se importa com você. E todas as vezes que te ligaram e você não atendeu por preguiça de sair de baixo das cobertas?
Outro ponto negativo é que minha neurose fica pior nesse dia. E passo o dia esperando que alguma coisa nova aconteça. Não acontece, é claro, nem precisaria dizer. Isso não é terrível? Que seus aniversários sejam tão previsíveis? Sua avó que liga ainda na véspera e te dá um pequeno maço de dinheiro e te diz pra não gastar tudo em doces. Sua tia que liga na hora do almoço escondida do chefe mala. Seus pais que te dão parabéns antes de te mandar lavar ou arrumar alguma coisa. A tradicional festa surpresa no final do dia e o churrasco básico no fim de semana. Não dava mesmo pra mudar? Um ano, que seja, alguma coisa que me surpreendesse de verdade? Alguma coisa que dissesse "Xis anos atrás você nasceu e estamos realmente felizes com isso", não qualquer coisa automatizada que nem precisa ser combinada, já que acontece sagradamente todos os anos.
E por falar em felicidade. E todas as pessoas que te desejam felicidade (agradeço muito, aliás, publicamente quem se deu ao trabalho de lembrar do meu dia) mas não fazem a mínima ideia de como fazer acontecer? Desejar a gente sempre deseja mas quem é que tem o segredo de como transformar em realidade? E quem tem, geralmente, sejamos francos, não dá a mínima. O problema da felicidade é que todo mundo quer mas todo mundo quer pra si. Ninguém ainda descobriu que dividindo a felicidade ela ainda continua do mesmo tamanho. Diferente do seu último ovo de páscoa, que você abriu essa semana.
Talvez eu devesse parar de ser ingrata, ao menos hoje, e festejar as oportunidades que tive nesses vinte anos de existência. Isso aí, vinte anos. Não "vintão", como alguns me disseram. Vintinho, se não se importam. Aniversários deveriam ser daqueles dias em que você pensa nas coisas boas que te aconteceram. Tipo um ano novo, sabem? Mas particular. É só mais um dia mas não precisa ser. Não pra você. Não pra mim. Não em mim. E como diz aquela música, na medida do impossível ta dando pra se viver. Deixa que as surpresas venham em dias aleatórios, deixa o telefone tocar quantas vezes queira.
Hoje é o dia oficial em que me permito ser otimista. Nada de pensar que um aniversário a mais é ao mesmo tempo um aniversário a menos. Mesmo que eu já tenha pensado. É o dia em que não me arrependo dos meus erros. É o dia em que comemoro meus acertos. É o dia em que acredito em muitas coisas. É o dia em que começo uma lista de coisas a fazer. É um dia de calma.


"A palavra não vinha. Podia fazer mil coisas a seguir. Mas dentro de qualquer ação, dentes arreganhados, restaria aquela sua profunda incapacidade de lidar com.(...) Só que os escritores são seres muito cruéis, estão sempre matando a vida à procura de histórias. Você me ama pelo que me mata. E se apunhalo é porque é para você, para você que escrevo — e não entende nada."


P.s: Feliz aniversário adiantado para o Ricardo! Parabéns, menino! Te desejaria felicidade e sucesso mas isso você já tem. Então te desejo dobrado :)

sábado, 16 de abril de 2011

Esquizofrenia Voluntária

7 maldades alheias
...ao som de I want you, Elvis Costello.

Às vezes gosto de agir como se você estivesse aqui. Sei lá porque. Talvez eu goste de sofrer. Talvez encontre algum prazer nisso. Moderadamente faz bem ao... Ao coração não! Ao pâncreas, vai saber.
É geralmente num dia normal. Um sábado acima de qualquer suspeita. Então eu acordo acreditando que você já está pra chegar. Quando saio pra fora olho a rua na esperança de te ver virando a esquina. E como não vejo imagino que sim. Nos cumprimentamos com um "Ah! Oi!" como se tivéssemos passado pouquíssimo tempo separados. E o gosto é de café e Colgate. Tem gosto de Bom Dia.
Quando vou preparar o almoço você se encosta no balcão da cozinha, me conta sobre sua semana, belisca um pouquinho dos ingredientes quando não estou olhando e me faz perguntas que já sabe a resposta. Coloco dois copos sobre a pia e encho um deles de Coca-Cola. Tomamos e eu escuto o som do liquido descendo pela sua garganta.
Nos sentamos a mesa e comemos em silêncio. Um prato e comida feita o suficiente pra dois. Você elogia o molho. Tem curry, eu digo. Você diz que é bom. Que gosta.
Ninguém lava os pratos. Comemos a sobremesa no sofá e você deixa cair um pedaço sobre a almofada. Rimos. Limpo o chocolate no canto da sua boca com um beijo leve. Tudo tão natural.
De tarde resolvemos caminhar num parque aqui perto. Quem me vê, me vê sozinha. Mas é numa lufada mais forte de vento que nossas mãos se apertam. E se começa a chover é pra lavar toda essa miséria.
Voltamos e você insiste em me ajudar com pequenas tarefas. Dobramos lençóis. É tarefa impossível dobrá-los sozinha. Os de elástico, então! Mas você ali parece tão cômodo, tão acertado.
Já vai anoitecendo e nos sentamos pra ver televisão. Você se exalta ao comentar a primeira notícia e eu sugiro que coloquemos um daqueles filmes antigos que tanto gostamos. Recostada na balaustrada do navio a mulher loira diz ao homem de sorriso enigmático que o inverno deve ser frio para aqueles que não têm memória. De você vem um cheiro de banho morno e braços apertados num abraço.
O filme acaba e nos despedimos demoradamente. Você mal foi embora e eu já espero o telefone tocar.
Mas não toca.
Só há um prato na pia. Um único copo sujo. Um único lugar afundado no sofá.
Quando me deito pra dormir meus sintomas estão curados. E não é como se eu me contorcesse de dor e de vontade de você. Mesmo que no fundo soubesse que não passei nem perto dos seus pensamentos hoje. Faço uma oração pra que você durma bem e que teus sonhos te tragam pra perto de mim.
Me enrolo no cobertor e adormeço decidindo se você volta no domingo.



"Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos nas pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. (...) Entretanto vida diferente não quer dizer vida pior, é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas também exato que perdeu muito espinho que fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. "

quinta-feira, 24 de março de 2011

Pra poesia que a gente não vive

18 maldades alheias

Para ouvir ao som de qualquer música. Hoje tanto faz. Só me conte qual, depois.

O problema, meu querido, não é você. Eu falo sério, sem um pingo de ironia ou falsidade. O problema é comigo. O problema, o problema de verdade, sou eu. Você foi só uma vítima. Vítimas são sempre tão desavisadas. Desatentas. Mas fica aí no teu canto tranquilo que ninguém espera grandes feitos das vítimas. Exceto que elas deixem a história no momento oportuno.

O problema é que eu tenho amor demais, sabe como é? Amo o suficiente pro dobro de mim. Não parece, né? Vendo assim de longe esses meus passos pequenos, esses meus gestos tão contidos. Esses segredos que me embaçam os olhos. Mas, meu bem, quando amo eu sou tempestuosa, exagerada, neurótica, louca. Amo e me sinto tomada, possessa, de um jeito que não sobra espaço pra essas besteiras tais como lembrar onde está o carro no estacionamento do supermercado. Olhar para os dois lados antes de atravessar a rua. Desligar o despertador no domingo.

O problema é que eu não agüento mais tanta baboseira sobre o amor, sobre o qual eu tenho lido. Não me venha com essa historinha de abnegação e nem sei mais o que. Nem tente me empurrar esse dogma furado de “eu espero que você seja muito feliz mesmo que não seja comigo”. Espero coisa nenhuma! Eu quero te ver esvaindo numa poça de sangue. Eu quero te ver morrendo, quero ver desespero em seus olhos quando me afasto. Quero que você sinta que não pode viver sem mim porque só eu sentindo isso é covardia. Pensar que você possa ser feliz sem mim da vontade de gritar até explodir, como costumam acreditar que as cigarras fazem. Puro egoísmo, eu sei. E nem me importo.

O problema é que quando se tem amor demais dentro de si ele desarranja o estômago. O amor vai te fazer sentar no chão da sala abraçando os joelhos e se balançando pra frente e pra trás. Só espera. O amor é um circuito e pra funcionar tem que ter o outro e meu outro é você. Eu quis que fosse você. Veja bem, eu poderia ter escolhido qualquer outro “outro” mas escolhi você. E quando o amor é demais e a gente entrega ele todo na mão de uma pessoa só a gente espera receber de volta nem que seja a metade. O amor é uma troca injusta onde se entrega demais de você pra alguém com as mãos ocupadas. E vai receber um não-sei-o-quê sem forma nenhuma que não te serve nem pra esquentar os pés numa tarde de maio. Entenda como quiser. Paciência.

O problema é que o amor não é paciente. Tem é pressa. É esfomeado. Tem sede e a minha sede só acaba onde começa a tua boca. Mas também é criatura instável, volúvel, tem vida própria. O amor anda nos becos nas noites sem lua procurando a próxima vítima. Te espreita feito bicho selvagem com os dentes a mostra, os olhos venenosos fixos na veia pulsante no teu pescoço.

O problema, coração, é que meu estomago não anda muito bem.

E o sol já se foi faz algum tempo.


"Amor não - não a dor que me impele de escrever isto mesmo sem eu querer, a dor que não será apagada pelo ato de escrever e sim acentuada, mas que será redimida, e se ao menos fosse uma dor digna que pudesse ser colocada em outro lugar que não essa sarjeta negra de vergonha e perda e loucura barulhenta na noite e pobre suor na minha testa" -Kerouac

sábado, 12 de março de 2011

Sacrifícios

12 maldades alheias

Para ouvir ao som de Like a Song, da Lenka.


Faz talvez sete ou oito anos, num acampamento parcialmente esquecido, no último dia eu e algumas amigas fomos encarregadas da penosa missão de comunicar um falecimento. Não sei se você já teve que fazer isso, mas se não espero que nunca precise. Nem fui eu quem disse alguma coisa e senti como se tivesse acertado uma joelhada nos rins da pessoa. Era tanta dor que eu tive que desviar os olhos, sem que isso me tenha permito esquecer a cena.

Mas feliz ou infelizmente pouca coisa é mais difícil do que ter que dizer adeus. Não existe palavra mais pesada ou mais impronunciável. A boca treme pra dizer, os dedos gelam pra não ter que escrever. Mas às vezes, e como eu agradeço por ser só às vezes, a gente fica sem escolha e não tem outra saída. Caímos numa encruzilhada e somos birrentos demais pra fazer a volta. Às vezes é preciso deixar o egoísmo de lado, pensar mais nos outros e no que é bom pra eles também. Ser mais altruísta, entende? Deixar as coisas irem porque sem você estariam a salvo. Estariam – admita – melhor sem você.

Tem dias que você acorda e a vida te pede pra deixar algumas coisas. Não como um teste ou algo assim. Isso não é um jogo. É só a vida. Vez em quando tem umas dessas, vai fazer o que? Se a dor de deixar partir é ainda maior do que a dor de manter por perto, é preciso medir em longo prazo. Se tudo no que você pensa parece dar errado talvez precise pensar de um jeito diferente. Você passa noites em claro procurando um bom motivo para deixar quando na verdade já têm muitos. Só está esperando um que entenda, que te convença, que faça parecer mais suportável ou mais lógico. Na verdade procura um motivo que desmereça todos os outros, justamente pra não ter que deixar nunca. Porque o pior do adeus é que por mais intenso que seja sempre parecerá parcial. Você ainda tem as lembranças, os dias quietos, os espaços vagos e, acima de tudo, tem a esperança de que o adeus não seja eterno. Deixar às vezes é a melhor escolha. Não a escolha certa, o certo é instável, flutua entre as ocasiões. Não dá pra dizer que uma escolha é certa quando faz alguém sofrer. É melhor porque poupa das dores futuras, as suas e de quem você deixa.

Eu sinceramente trocaria toda dor de um momento de despedida por uma dor incômoda e diária. Só pra não ter que dizer, só pra não ter que borrar os olhos mais uma vez. E o tempo insiste em passar rápido e simplesmente não dá pra perder ainda mais com medo, com as pernas bambas.

Não é abandonar. Abandonar é jogar por cima dos ombros sem olhar pra trás nem pra ver onde caiu. Deixar, pura e simplesmente, é diferente. Deixar é o beijo de despedida na testa. É a tentativa falha de controlar o choro, as promessas frustradas. São os dedos que se tocam até que a distância não mais permita. Virar-se e continuar vivendo ou sobrevivendo, ainda que cambaleante. Deixar é quando você sente que perdeu, é quando você torce pra alguma coisa ou alguém (mais “alguéns” do que coisas) não te esquecer, é quando levam parte de você. Às vezes, parece, levam a alma toda. Deixar é quando, apesar de aliviar a bagagem, o peso sobre as costas parece muito maior e os joelhos ficam mais fracos. É entender que Maquiavel não estava sendo frio e calculista quando afirmou que sacrifícios devem ser feitos para um bem maior. Ele estava sendo sensato.


“E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. (...) Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no prato. A dor de perder alguém em vida é pior do que a dor da morte, porque é o nunca mais de alguém que se poderia ter, já que está vivo e por perto.”.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Depois de Você

15 maldades alheias

Para ler ao som de “Os outros”, Leoni.

Meu calendário foi zerado no dia em que você se foi. Posso contar a minha vida por esses dois períodos - o antes e o depois de você. O antes é tudo simplificado. São lembranças meio vagas, meio opacas, como fitas velhas de VHS. Foram dias nublados dos quais nem me lembro direito. E se não trouxesse algumas cicatrizes poderia jurar que não foram reais. Tem uma no meu pé direito que prova que alguns anos atrás, na época agora denominada Antes de Você (ou AV, pra encurtar) me acidentei de forma estranha com um prato num acampamento. Tenho muitas histórias pra contar dessa época, algumas eu só sei porque me contaram. Mas muitas delas merecem créditos de contos ou lendas, não sei. São meio desfocadas. Lembro de ter muitos objetivos e sonhos, alguns bons amigos, muitas risadas, fins de semana atarefados. Alguns desapontamentos, claro. Mas hoje são contados sem traumas. Não deixaram danos permanentes.

Aí vem um período um tanto confuso que eu poderia chamar de entre-épocas. Mais ou menos como a história e Jesus Cristo, entende? Se estivéssemos falando dele, ele agora estaria andando sobre as águas ou multiplicando uns peixes. Eu estaria encontrando você. E eu poderia chamar isso de milagre porque é assim que chamam as coisas inacreditáveis e sem explicação que se deve agradecer todos os dias. Então vem o caos, que eu também poderia chamar de crucificação porque foi como eu senti. Só que meu coração não voltou a bater depois de três dias. E ninguém foi salvo por isso. Na verdade, depois “disso” eu me sinto cada dia mais sem rumo. Foi o fim e todo fim trás em si algo de melancólico e deprimente porque significa que alguma coisa está sendo perdida. É, fins podem indicar o começo de alguma outra coisa mas esses começos nem sempre são tão bons quanto aquilo que terminou.

Então nos encontramos onde eu, e de certa forma você, estamos. Fácil de presumir. Estamos no período Depois de Você (ou DV, se preferir). Têm sido dias tão claros e tão marcados. Cada dia é como uma fotografia que penduro na parede e com o tempo posso ver sua imagem sem nem mesmo olhar pra ela. O tempo anda rápido nessa nova época e eu não sei o porquê de tanta pressa quando é óbvio que, sem você, não irei a lugar nenhum. A vida continua mas continua daquele jeito, sabe? Meio que falhando. Ainda tenho alguns objetivos e sonhos mas tenho que te apagar deles antes de tirá-los da gaveta. Sei que posso contar com alguns bons amigos. Não os mesmo nem tantos quando antes mas definitivamente melhores. Risadas? Sempre, é claro. Você sabe que sei ver a graça até na desgraça. Admito que meus fins de semana saíram do ritmo mas isso é questão de tempo até adaptar a nova época. Quanto aos desapontamentos só me resta um. Nenhum outro tem a menor significância, nem me abalam, nem um arranhãozinho sequer. E não é o que você pensa. Não é a sua ausência que me machuca. É justamente o fato de haver uma ausência. Olha, seria muita presunção sua achar que meu vazio tem exatamente suas medidas e minha mão só fica bem com a sua. Tenho quase certeza de que há alguém perfeito pra ocupar seu lugar.

E esse é o problema.

Porque quando conheço alguém me pergunto se é melhor que você, se me completa como você completava, se tem ou não as qualidades que eu tanto admirava em você, se tem ou não os defeitos que eu ignorava em você. Percebe? Então conte quantas vezes eu digo “você” e talvez entenda. Até quando você não está as coisas são sempre sobre você. E eu sei que não vão mudar. Quem iria contentar-se com menos depois de ter vivido a perfeição? Se com você era tudo, sem você vai ser sempre “quase” ou “quase nada” ou simplesmente “nada”. Um “quase” amor, uma poesia incompleta, um filme sem final, um livro faltando páginas. Os menores gestos, as palavras mais insignificantes vão gerar uma comparação “quase” involuntária.

É porque o Depois de Você já existe. Então o Sem Você se torna fisicamente impossível. E sem você, meu bem, nada faria sentido.



“Às vezes não consigo compreender como outro pode amá-la, ousa amá-la, uma vez que eu a amo tão unicamente, tão profundamente, tão perfeitamente; uma vez que nada conheço, nada sei e nada tenho, além dela.”

Trecho em transcrição literal de Os Sofrimentos do Jovem Werther, J.W. Goethe

 
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