sexta-feira, 13 de maio de 2011

Pra mim

6 maldades alheias
...ao som de A idade do céu, Zélia Duncan.

Não é propriamente ruim fazer aniversário numa sexta-feira 13. Quero dizer, eu já me acostumei. Ou deveria porque dos (não importa!) tantos aniversários que eu comemorei uns três ou quatro cairam nesse dia. Fora o simbolismo e a coisa toda não tem lá suas desvantagens. Nem vantagens, no entanto. No fundo não importa. Ainda estou me acostumando com isso de não querer fazer mais aniversários. Já fiz aniversários o suficiente! Porque cheguei numa época em que cada aniversário tem o peso de um ano inteiro. Nem me passa pela cabeça que na verdade é só a marca de 365 mini-aniversários que comemoro todos os dias. Notou a ironia na palavra "comemoro", certo?
Devo ter dito que a coisa toda de aniversários me irrita um pouco. É desanimador, na verdade. Estaria mentindo se dissesse que não é um dia esperado, que não é um dia especial. O problema é que só é especial pra quem nasceu naquele dia. Pense em quantas pessoas tiverem que acordar cedo no seu aniversário e pensaram "ai que droga! Mais um dia naquela merda de emprego!" enquanto você já acorda esperando as ligações de quem você ama. E que supostamente, e eu disse SUPOSTAMENTE te amam de volta. O problema é que quando o telefone não toca você já fica pensando que tem alguma coisa de errado, ninguém se importa com você. E todas as vezes que te ligaram e você não atendeu por preguiça de sair de baixo das cobertas?
Outro ponto negativo é que minha neurose fica pior nesse dia. E passo o dia esperando que alguma coisa nova aconteça. Não acontece, é claro, nem precisaria dizer. Isso não é terrível? Que seus aniversários sejam tão previsíveis? Sua avó que liga ainda na véspera e te dá um pequeno maço de dinheiro e te diz pra não gastar tudo em doces. Sua tia que liga na hora do almoço escondida do chefe mala. Seus pais que te dão parabéns antes de te mandar lavar ou arrumar alguma coisa. A tradicional festa surpresa no final do dia e o churrasco básico no fim de semana. Não dava mesmo pra mudar? Um ano, que seja, alguma coisa que me surpreendesse de verdade? Alguma coisa que dissesse "Xis anos atrás você nasceu e estamos realmente felizes com isso", não qualquer coisa automatizada que nem precisa ser combinada, já que acontece sagradamente todos os anos.
E por falar em felicidade. E todas as pessoas que te desejam felicidade (agradeço muito, aliás, publicamente quem se deu ao trabalho de lembrar do meu dia) mas não fazem a mínima ideia de como fazer acontecer? Desejar a gente sempre deseja mas quem é que tem o segredo de como transformar em realidade? E quem tem, geralmente, sejamos francos, não dá a mínima. O problema da felicidade é que todo mundo quer mas todo mundo quer pra si. Ninguém ainda descobriu que dividindo a felicidade ela ainda continua do mesmo tamanho. Diferente do seu último ovo de páscoa, que você abriu essa semana.
Talvez eu devesse parar de ser ingrata, ao menos hoje, e festejar as oportunidades que tive nesses vinte anos de existência. Isso aí, vinte anos. Não "vintão", como alguns me disseram. Vintinho, se não se importam. Aniversários deveriam ser daqueles dias em que você pensa nas coisas boas que te aconteceram. Tipo um ano novo, sabem? Mas particular. É só mais um dia mas não precisa ser. Não pra você. Não pra mim. Não em mim. E como diz aquela música, na medida do impossível ta dando pra se viver. Deixa que as surpresas venham em dias aleatórios, deixa o telefone tocar quantas vezes queira.
Hoje é o dia oficial em que me permito ser otimista. Nada de pensar que um aniversário a mais é ao mesmo tempo um aniversário a menos. Mesmo que eu já tenha pensado. É o dia em que não me arrependo dos meus erros. É o dia em que comemoro meus acertos. É o dia em que acredito em muitas coisas. É o dia em que começo uma lista de coisas a fazer. É um dia de calma.


"A palavra não vinha. Podia fazer mil coisas a seguir. Mas dentro de qualquer ação, dentes arreganhados, restaria aquela sua profunda incapacidade de lidar com.(...) Só que os escritores são seres muito cruéis, estão sempre matando a vida à procura de histórias. Você me ama pelo que me mata. E se apunhalo é porque é para você, para você que escrevo — e não entende nada."


P.s: Feliz aniversário adiantado para o Ricardo! Parabéns, menino! Te desejaria felicidade e sucesso mas isso você já tem. Então te desejo dobrado :)

sábado, 16 de abril de 2011

Esquizofrenia Voluntária

7 maldades alheias
...ao som de I want you, Elvis Costello.

Às vezes gosto de agir como se você estivesse aqui. Sei lá porque. Talvez eu goste de sofrer. Talvez encontre algum prazer nisso. Moderadamente faz bem ao... Ao coração não! Ao pâncreas, vai saber.
É geralmente num dia normal. Um sábado acima de qualquer suspeita. Então eu acordo acreditando que você já está pra chegar. Quando saio pra fora olho a rua na esperança de te ver virando a esquina. E como não vejo imagino que sim. Nos cumprimentamos com um "Ah! Oi!" como se tivéssemos passado pouquíssimo tempo separados. E o gosto é de café e Colgate. Tem gosto de Bom Dia.
Quando vou preparar o almoço você se encosta no balcão da cozinha, me conta sobre sua semana, belisca um pouquinho dos ingredientes quando não estou olhando e me faz perguntas que já sabe a resposta. Coloco dois copos sobre a pia e encho um deles de Coca-Cola. Tomamos e eu escuto o som do liquido descendo pela sua garganta.
Nos sentamos a mesa e comemos em silêncio. Um prato e comida feita o suficiente pra dois. Você elogia o molho. Tem curry, eu digo. Você diz que é bom. Que gosta.
Ninguém lava os pratos. Comemos a sobremesa no sofá e você deixa cair um pedaço sobre a almofada. Rimos. Limpo o chocolate no canto da sua boca com um beijo leve. Tudo tão natural.
De tarde resolvemos caminhar num parque aqui perto. Quem me vê, me vê sozinha. Mas é numa lufada mais forte de vento que nossas mãos se apertam. E se começa a chover é pra lavar toda essa miséria.
Voltamos e você insiste em me ajudar com pequenas tarefas. Dobramos lençóis. É tarefa impossível dobrá-los sozinha. Os de elástico, então! Mas você ali parece tão cômodo, tão acertado.
Já vai anoitecendo e nos sentamos pra ver televisão. Você se exalta ao comentar a primeira notícia e eu sugiro que coloquemos um daqueles filmes antigos que tanto gostamos. Recostada na balaustrada do navio a mulher loira diz ao homem de sorriso enigmático que o inverno deve ser frio para aqueles que não têm memória. De você vem um cheiro de banho morno e braços apertados num abraço.
O filme acaba e nos despedimos demoradamente. Você mal foi embora e eu já espero o telefone tocar.
Mas não toca.
Só há um prato na pia. Um único copo sujo. Um único lugar afundado no sofá.
Quando me deito pra dormir meus sintomas estão curados. E não é como se eu me contorcesse de dor e de vontade de você. Mesmo que no fundo soubesse que não passei nem perto dos seus pensamentos hoje. Faço uma oração pra que você durma bem e que teus sonhos te tragam pra perto de mim.
Me enrolo no cobertor e adormeço decidindo se você volta no domingo.



"Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos nas pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. (...) Entretanto vida diferente não quer dizer vida pior, é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas também exato que perdeu muito espinho que fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. "

quinta-feira, 24 de março de 2011

Pra poesia que a gente não vive

18 maldades alheias

Para ouvir ao som de qualquer música. Hoje tanto faz. Só me conte qual, depois.

O problema, meu querido, não é você. Eu falo sério, sem um pingo de ironia ou falsidade. O problema é comigo. O problema, o problema de verdade, sou eu. Você foi só uma vítima. Vítimas são sempre tão desavisadas. Desatentas. Mas fica aí no teu canto tranquilo que ninguém espera grandes feitos das vítimas. Exceto que elas deixem a história no momento oportuno.

O problema é que eu tenho amor demais, sabe como é? Amo o suficiente pro dobro de mim. Não parece, né? Vendo assim de longe esses meus passos pequenos, esses meus gestos tão contidos. Esses segredos que me embaçam os olhos. Mas, meu bem, quando amo eu sou tempestuosa, exagerada, neurótica, louca. Amo e me sinto tomada, possessa, de um jeito que não sobra espaço pra essas besteiras tais como lembrar onde está o carro no estacionamento do supermercado. Olhar para os dois lados antes de atravessar a rua. Desligar o despertador no domingo.

O problema é que eu não agüento mais tanta baboseira sobre o amor, sobre o qual eu tenho lido. Não me venha com essa historinha de abnegação e nem sei mais o que. Nem tente me empurrar esse dogma furado de “eu espero que você seja muito feliz mesmo que não seja comigo”. Espero coisa nenhuma! Eu quero te ver esvaindo numa poça de sangue. Eu quero te ver morrendo, quero ver desespero em seus olhos quando me afasto. Quero que você sinta que não pode viver sem mim porque só eu sentindo isso é covardia. Pensar que você possa ser feliz sem mim da vontade de gritar até explodir, como costumam acreditar que as cigarras fazem. Puro egoísmo, eu sei. E nem me importo.

O problema é que quando se tem amor demais dentro de si ele desarranja o estômago. O amor vai te fazer sentar no chão da sala abraçando os joelhos e se balançando pra frente e pra trás. Só espera. O amor é um circuito e pra funcionar tem que ter o outro e meu outro é você. Eu quis que fosse você. Veja bem, eu poderia ter escolhido qualquer outro “outro” mas escolhi você. E quando o amor é demais e a gente entrega ele todo na mão de uma pessoa só a gente espera receber de volta nem que seja a metade. O amor é uma troca injusta onde se entrega demais de você pra alguém com as mãos ocupadas. E vai receber um não-sei-o-quê sem forma nenhuma que não te serve nem pra esquentar os pés numa tarde de maio. Entenda como quiser. Paciência.

O problema é que o amor não é paciente. Tem é pressa. É esfomeado. Tem sede e a minha sede só acaba onde começa a tua boca. Mas também é criatura instável, volúvel, tem vida própria. O amor anda nos becos nas noites sem lua procurando a próxima vítima. Te espreita feito bicho selvagem com os dentes a mostra, os olhos venenosos fixos na veia pulsante no teu pescoço.

O problema, coração, é que meu estomago não anda muito bem.

E o sol já se foi faz algum tempo.


"Amor não - não a dor que me impele de escrever isto mesmo sem eu querer, a dor que não será apagada pelo ato de escrever e sim acentuada, mas que será redimida, e se ao menos fosse uma dor digna que pudesse ser colocada em outro lugar que não essa sarjeta negra de vergonha e perda e loucura barulhenta na noite e pobre suor na minha testa" -Kerouac

 
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