quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fique comigo

13 maldades alheias
Não vá embora, por favor. Ainda é tão cedo. E eu gosto tanto de estar com você e das nossas conversas. Gosto quando falamos do último filme que você viu, do livro que estou lendo, de política, de arte, de nossos sonhos e de como nossa realidade está tão longe deles e de como conseguimos rir disso tudo. E eu sei que não vimos os mesmos filmes, nem lemos os mesmos livros, você nem nunca ouviu falar do meu poeta preferido, não temos as mesmas visões políticas, nem admiramos as mesmas pinturas no museu. Mas talvez isso seja uma coisa boa. Se concordássemos em tudo não teríamos sobre o que discutir e ficaria aquele silêncio tedioso.
Olha, não leve a mal o que vou dizer agora. Não é que eu goste de estar com você só porque me ajuda a esquecer. Não é só porque, quando estamos juntos, eu consigo não pensar no que me machuca. Você me faz bem de tantas formas.
Quando você me abraça e eu sinto que vou sumir nos seus braços é como se nada mais pudesse me ferir. E eu fecho os olhos, sem medo, me sentindo protegida. Não sei como você faz isso mas nos seus braços e de olhos fechados não vejo mais os rostos que me assombram, nem as palavras que me abalam, nem escuto as vozes que me destroçam.
Quando você me olha com esses teus olhos tão negros não consigo evitar de corar. E o calor do meu rosto seca a última lágrima que eu deixei escapar.
Só você me faz acreditar no impossível. Me mostra a cada dia que sorrir é mais fácil do que parece. Você toca minha mão e eu me desfaço só pra te ver juntar. Você sorri e me falta o ar.
Quando você me beija meu coração volta a bater, e apressado. Como que para recuperar o tempo perdido. Depois de tanto tempo eu consigo senti-lo vivo, ainda que um pouco frágil.
É por isso que você não pode ir ainda. Não enquanto minhas feridas não pararem de arder, de sangrar e finalmente, não enquanto elas não cicatrizarem. Fique comigo até o sol nascer. E quando ele nascer, fique até que ele se ponha. Porque eu sei que no momento em que você for vai voltar a doer, vai voltar a sangrar, vou esquecer como sorrir e não vou mais poder conter as lágrimas. Você é a minha cura. Eu preciso de você como o dia precisa do sol pra ser o que é. Eu não posso fazer um retrato falado da sua alma mas quero ter a vida toda pra aprender. Eu só preciso que você fique.



"Temos, porém, de nos conformar, como um viajante que deve transpor uma montanha. Sem dúvida, se a montanha não estivesse ali, o caminho seria muito mais cômodo e mais curto; mas, já que está, é preciso vencê-la!..."


Na próxima semana, o ÚLTIMO POST DO ANO. E, é claro, a última citação.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Reminiscências

28 maldades alheias
Numa das minhas frequêntes noites de insônia cheguei a conclusão de que o que dói e o que mata um pouco a cada manhã não é a ausência mas sim as reminiscências. São aquelas sobras, as migalhas sobre a mesa, aquela sombra, aquela marca na poeira que prova que algo existiu, algo esteve ali e ocupou espaço mas agora foi embora. É claro, porque é impossível sentir falta de algo que jamais se teve. O pior de tudo é ter de conviver com lembranças que nunca serão nada além disso. Pensar que certos momentos simplesmente não podem ser reprisados é que da uma vontade de nunca mais pensar em nada. Chega-se a um ponto do desespero que você deseja que aquelas ocasiões jamais tivessem acontecido.
Tento entender isso como aquelas queimaduras de sol depois de uma tarde na praia. Sua pele ainda traz a marca, você se lembra da sensação do calor mas o sol há muito já se foi. Você pensaria no sol se seus ombros não ardessem?
A verdade é que todos esperamos por qualquer coisa que refresque a pele, que apague. Só que algumas marcas são mais difícieis que as outras. Por razões que estou longe de entender algumas lembranças estão mais incrustadas na gente. E eu sei que "incrustadas" é uma palavra horrível mas achei que ficaria bem aqui.
Não sei se só eu vejo a ironia nisso que estou prestes a dizer. Sabe quando você não lembra o nome daquela pessoa que estudou na sua sala por três anos inteiros mas lembra até a posição das estrelas na noite daquele beijo com gosto de chicletes de melancia? Sabe quando você tem um lápso e não consegue lembrar o nome do meio do Pelé mas aquela receita que vocês fizeram juntos você sabe de cor?
E às 2:53 da manhã de hoje, ouvindo Canção Para Um Grande Amor da Isabella Taviani tocando no rádio, eu me perguntava o por quê. Porque algumas coisas eu não consigo esquecer e deixar pra lá? Por que até as sutilezas são lembranças tão vívidas? Por que eu ainda me importo? Por que eu não consigo pensar no passado como passado e suportar o presente tolerável? POR QUE, DIABOS, EU NÃO USEI A DROGA DO BLOQUIADOR SOLAR?



"Você me lembra um poema que não consigo
lembrar uma canção que nunca existiu
e um lugar onde nunca teria ido."

domingo, 28 de novembro de 2010

Submundo

18 maldades alheias
Tantos eventos ocorrem de modo não-manifesto. Existe um outro mundo onde as coisas acontecem só pra uma pessoa. Porque acontecem dentro delas mesmas. Onde nada é dito, nada é demonstrado e tudo é sentido. Diálogo, só se for contigo mesmo.
É o mundo onde tudo é interpretado pela própria percepção, pelo próprio pessimismo e por todas as experiências anteriores. Nada é perguntado, portanto nada é respondido. As perguntas são feitas internamente e assim são respondidas, pela imaginação. Você imagina a resposta e age como se tivessem sido reais. E sofre porque precipitada e erroneamente achou que sabia alguma coisa da vida. Quando na verdade você não sabe nada. Acha que passou por muita coisa? Acha que tem opinião formada sobre tudo? Acha que sabe alguma coisa que mais ninguém sabe?
Deixar que as primeiras impressões definam sua forma de ver as coisas é pedir pra ver tudo errado. Porque logo de cara vai ver as coisas como queriam que elas fosse e não como realmente são. Quer ver as coisas como são? Não vai. Porque só pode ver as coisas através dos próprios olhos. Se soubesse disso não teria cometido tantos equívocos com essa mania de achar que o mundo é exatamente do jeito que você vê.
Enlouquece passar tanto tempo vivendo dentro da própria mente, lidando com as figuras inexistentes. O mundo é muito mais amplo e muito mais inesperado do que supoe a limitada existência humana.
Não responda suas próprias perguntas. Tente não fazer tantas perguntas. Não tente interpretar o outro baseado no próprio comportamento. Tente não sofrer por antecipação. Tente não sofrer. As coisas nem sempre são como parecem. As pessoas nem sempre são o que parecem. Às vezes uma existência rasa traz menos desespero do que conhecer a própria existencia profundamente. O mundo real vai sempre decepcionar você se continuar comparando com seu mundo particular. E quando os outros não agirem como você espera não vai saber o que fazer. Então não espere nada.



"Há momentos em que você sabe que está acordado mas não consegue se livrar da sensação de que deve estar sonhando, porque o mundo subitamente mostra a você alguma coisa que não faz sentido algum."
 
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